Ventos uivantes e o technobrega comendo solto
Uma análise de um apartamento mergulhado em um estilo musical duvidoso
Enquanto o dilúvio é anunciado por uma forte ventania, eu fecho as janelas tentando escapar da sua fúria. O vento entra pelas frestas com um assobio assustador, como se fosse o grito de um gigante flamejante cuspindo fogo em seus inimigos.
Eu abro a janela e o gigante se vai. Ao longe, o technobrega come solto.
Enquanto filósofos do passado perdiam seu precioso tempo em campos que teorizavam sobre nossa existência mundana, eu utilizo meu cérebro tentando entender a mente de outro ser humano.
A grande pergunta aqui não é, “de onde viemos?”, “para onde vamos?” ou “o que vamos comer no almoço?”, a maior questão envolvendo os mistérios da humanidade é “por que alguém escuta isso?”.
Nove entre dez pessoas que eu conheço condenam o technobrega, todas concordam em se tratar de um mau gosto doentio. Essas nove pessoas compartilham da crença de que esse estilo musical foi criado por chineses, que durante a grande guerra buscavam novos e aprimorados métodos de tortura. Por uma combinação de situações curiosas, a técnica chegou até o Brasil (mais especificamente à região Norte) e instantaneamente virou febre para a população local. Pessoas que possuem uma alta tolerância à vergonha, entopem loucamente festas de technobrega onde dançam alucinadamente e fazem gestos (que a primeira vista podem ser considerados ‘apenas estúpidos’) mostrando todo o seu amor pela ‘música’.
O technobrega faz um sucesso estupendo na periferia, mas não é exclusivo dela. Cada vez mais as pessoas da chamada ‘classe média’ escutam estas ‘músicas’, passeando em seus carros com o volume mais alto, achando que compartilhar a ‘bela canção’ que escutam, com todos, os fazem pessoas legais, ignorando por completo que aquela atitude os tornam perfeitos idiotas.
Talvez o maior problema do technobrega seja esse. Por ser apreciado por pessoas sem cérebro e pessoas de baixa renda, uma aura de preconceito surgiu sobre ele. A negatividade que caiu sobre a ‘música’, por ela ser escutada por babacas, fez com que nós, pessoas metidas a pensadores, que acham que tudo que não gostamos não passa de merda, condenemos o technobrega por acreditar que escutá-lo fará com que nosso cérebro derreta em uma espécie de massa uniforme, com cheiro (e gosto) de vômito. Tornando-nos tão estúpidos quanto aqueles que apreciam o ‘estilo’.
Tal julgamento não passa de babaquice e é próprio de uma mente raza e inferior. Não quero ser uma dessas pessoas. Ignorando meu pré-conceito, resolvo dar uma chance para a música. Fico em pé na sacada e o technobrega me atinge no peito. Inundando-me de ‘belas palavras’ e um ritmo ‘empolgante’.
Cinco segundos depois meu dedo do meio levanta-se em reverencia. O gigante flamejante voltou. Uma labareda chia pelo meu quarto, destruindo a festa ao longe, fazendo com que todos deixem de dançar e corram desesperadamente em chamas. A pergunta ainda persiste. O gigante dança em triunfo, seu nome é Estupidez. E eu o adoro.
* Todas as palavras entre aspas não passam de sarcasmo